O sétimo mar

É verdade, sim, passei uma boa temporada sem escrever aqui. Diria que estava aplicando (e ainda o estou) o conceito do blog, mais além, em outras pairagens. Na minha vida, para ser mais exato. Afinal, é meio feio pregar o que não se faz, né? Risos…

Isso pode dar um post. Um outro post, não este, pois o que me trouxe aqui hoje, em pleno início de domingo que antecede uma semana com dois feriados, é música. Adoro ouvir e falar, além de dançar música. É de uma necessidade físico-espiritual única!

Acontece que essa semana, fiquei sabendo pelo amigo Fábio Honório do lançamento de Maré, o novo rebento de Adriana Calcanhotto. E alguns cliques depois, outra novidade: desta vez, de uma de minhas bandas preferidas, os ingleses do Goldfrapp. Daí, tive que dar meu pitaco, não teve jeito! Ainda mais quando o Segundo Caderno do jornal O Globo dedicou uma página inteira ao canto da sereia Calcanhotto.

Sim, Maré e Maritmo, de 1998, são irmãos e formam uma trilogia com um disco ainda por lançar, segundo a cantora. Para dizer a verdade, Maritmo foi o primeiro disco de Adriana que comprei. Apesar de as canções beberem em várias fontes, o todo funciona muito bem. Diria até que tem um apelo mais pop, embora sempre sofisticado.

Maré, o irmão mais recente, é muitíssimo mais elegante e, palavra de leigo em música, é mais coeso enquanto disco. Os arranjos permeiam as músicas de maneira econômica, como a cantora sublinha em sua entrevista a O Globo, e bem simples, sem muitos enfeites. Mas, fica um gostinho de “acabou?” quando se ouve a última faixa.

Neste quesito, Cantada, o último disco de estúdio da cantora, nos deixa, ouvintes, mais satisfeitos. O disco acaba como um grand finale. Maré é mais feminino, se esvai sem avisar. Sem deixar um recadinho na cabeceira da cama. É um disco bem matutino, ao meu ver.

Nisso, Maré e The seventh tree (algo como, A sétima árvore), o último álbum de Goldfrapp, têm muito a ver. Têm um clima de manhã, meio melancólica, fruto de uma noite de acontecimentos (êta, referência óbvia a Marina Lima!). Só que sem obviedades.

Alison (cujo sobrenome é o nome do duo) e Will Gregory criam discos sempre surpreendentes, embora sejam costumeiramente classificados como música eletrônica. Não esperem nada “bate-estaca”; pelo menos, não neste álbum. O fato é que, depois de dois discos mais voltados ao glam-sex-electro-beats, respectivamente Black Cherry (2003) e Supernatural (2005), a dupla retorna às origens, um tanto herméticas alguns dirão, do disco de estréia Felt Mountain (2000).

Alison, dona de vocais etéreos e afinadérrimos (ela tem um pé no canto lírico!), se tornou uma estrela pop às avessas, trilhando caminhos menos óbvios e previsíveis. Quem consegue se esquecer de suas performances de dança com um literal e intrigante rabo de cavalo acoplado ao figurino? 

Felt Mountain e The seventh tree têm uma introspecção muito semelhante, embora o último tenha uma pegada mais pop-rock, além de ser mais otimista e “levanta-poeira”. Mas confesso que fiquei meio “como assim?”, pois esperava algo na trilha de hits como Oohlala e Strict machine. Mas ouvir Road to somewhere me fez pensar que Supernatural já indicava de alguma maneira esse atalho. É uma faixa super emotiva que se comunica com Time out from the world. Linda, linda!

Beijos a todos e curtam o som feminino do outono!

André Silva Bern

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Será?!

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Ontem me surpreendi ao receber um e-mail de uma amiga divulgando o evento “The day of light”, que acontecerá no próximo dia 9 de março. Surpresa positiva, pois há algum tempo venho lutando (sim, essa é a palavra… risos) para convencer minha mãe, ávida leitora de notícias a la O Povo, a ler sobre assuntos mais amenos e de vibração mais positiva.

“The day of light” tem como premissa que “boas notícias podem acender uma nova atitude”. Assim sendo, para participar da campanha, que surgiu no Brasil (apesar do inglês que impera no site, talvez como forma de atingir um público mais extenso), basta que no dia do evento selecionemos melhor o que vamos ler. Compremos apenas jornais e revistas cujas manchetes sejam em sua maioria otimistas.

Utopia? Talvez não dê para saber, mas em tempos de tamanha descrença, acho que vale a pena dar crédito a uma campanha que propõe mais ânimo e foco no que há de positivo em nosso cotidiano. O que não significa que fecharemos nossos olhos para tudo o que está errado e ruim. Mesmo porque é inevitável ver os traçantes e os resultados de tantas balas perdidas. Mas, por outro lado, será que adianta apenas ler tais desgraças e dizer que o Brasil (e o mundo) está uma droga?

Quem sabe não é partindo do que temos de bom que vamos aos pouquinhos contagiando todo o resto? Ou será que uma maçã podre no cesto realmente faz com que todas as outras apodreçam?

Enquanto pensamos em uma possível resposta para a charada, por que não caminharmos juntos no dia 9 em Copacabana, conversando sobre o quanto acreditamos que o Brasil, sim, tem jeito?

Super abraços,

André Silva Bern

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Visitem Vassouras!

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   Há algumas semanas, visitei um lugar que já conhecia, pela primeira vez. Estranho, não? Mas foi isso mesmo que aconteceu. Pela primeira vez, depois de 5 meses trabalhando em Vassouras, conheci, de fato, esta bela cidade. Todos os finais de semana que lá passei foram muito profissionais. Desta última vez, sem compromissos de trabalho, pude perceber o quão aconchegante é este lugar. Ficou com vontade de conhecer? Vou fazer um pequeno roteiro.

 1- Passagens: Para quem está no Rio de Janeiro, os ônibus partem da rodoviária Novo Rio. A empresa responsável pelo trajeto é a Normandy. Os preços variam de acordo com o horário e com a disponibilidade do ar-condicionado. Uma passagem custa por volta de 25 reais.

2- Trajeto: A viagem dura quase 2 horas e meia, a depender do trânsito. O trajeto é: rodoviária – Avenida Brasil – Dutra – Paracambi – Engenheiro Paulo de Frontin – Mendes – Vassouras. Ao chegar a Paracambi o caminho é quase todo de serra. Se você costuma enjoar, não deixe de tomar o seu Dramin (são muitas curvas). Logo subindo a serra de Paracambi, fique olhando para a sua esquerda. Há uma linda queda d’água. As duas outras cidades são bem bonitinhas. Engenheiro Paulo de Frontin fica no meio da estrada. Tudo muito limpinho; tem até portão de entrada. Mendes não é muito diferente. É considerada a cidade que tem o 4º melhor clima do mundo (pelo menos é que diz um cartaz enorme no centro da cidade).   

3- Chegando a Vassouras: A Rodoviária é muito simples. Ao descer do ônibus, você pode caminhar até o centro da cidade (se não estiver cansado) ou pegar um taxi. Lá não há taxímetro. Eles estipulam o valor de 7 reais para as corridas.

4- Hospedagem: Os hotéis e pousadas costumam ser muito bons. Particularmente, conheço apenas um. Estive lá uma vez, gostei muito do serviço e me tornei cliente fiel. É o Mara Palace Hotel. É um lugar muito bonito, com piscina e lindas salas de convivência. A diária fica em torno de 90 reais. Tenho um amigo que gosta muito da Pousada Veredas. Lá os preços são um pouco menores mas, por se tratar de uma pousada, oferece menos serviços. Nunca ouvi reclamações de colegas que se hospedam em outros locais. Os serviços da cidade, de uma forma geral, são muito bons.

5- Os pontos turísticos: Não são muitos lugares para conhecer, pois a cidade é bem pequena. Porém, os poucos que há são encantadores. Antes de contar um pouco sobre eles, vale uma contextualizada histórica rápida. Vassouras também é conhecida como a “Princesinha do Café”. Isso porque teve grande importância no período do ciclo do café, no século XIX. Um dos mais importantes municípios do Vale do Paraíba, Vassouras está diretamente ligada aos primórdios da história do Rio de Janeiro e de Minas Gerais. Os Vassourenses são meio isso, uma misturinha boa dos cariocas e dos mineiros. Percebemos isso em seu sotaque. Parece muito com os dos mineiros, mas tem um quê de carioca. Bom, acho que já posso mostrar um pouco da cidade.

5.1- Praça Barão de Campo Belo: É linda! Poderia dizer que é o principal ponto turístico da cidade. O parque da praça é um ótimo lugar para a diversão das crianças. Extremamente limpa e cuidada, a praça guarda a atmosfera de cidade pequena. Do local, vemos o belíssimo prédio do Paço Municipal, atual sede da Prefeitura, que já serviu de júri e cadeia. Foi nessa praça, inclusive, que a Globo gravou várias cenas da minissérie Presença de Anita.

5.2- Igreja Nossa Senhora da Conceição: Até quem não é católico vai se encantar com essa pequena igreja. Localizada no alto da Praça Barão de Campo Belo, a igreja é um monumento religioso de referência para a cidade.  

5.3- Museu Casa da Hera: Trata-se de uma lindíssima casa, típica do século XIX, erguida em 1830 por uma família representante do comércio de café da região. Viveu nela, Eufrásia Teixeira Leite, mulher de biografia singular. A casa possui 22 cômodos compostos de mobiliário, porcelanas, prataria, quadros e objetos de uso pessoal e doméstico dos antigos moradores. Um dos destaques, em minha opinião, é o belíssimo piano francês, no salão amarelo. Segundo o guia, é o único exemplar no mundo em funcionamento. Outro destaque é o Salão Vermelho. Ali, eram recebidas as visitas e também os possíveis interessados na compra do café. Vale muito a visita! Ah, o nome do museu deve-se ao revestimento dos muros do casarão, que é todo coberto de heras.

5.4- Universidade Severino Sombra (USS): É o coração da cidade. Vassouras, depois da inauguração da universidade na década de 60, passou a ser uma cidade universitária. Em quase todos os pontos comerciais da cidade há um adesivo da ASFUSVE, a associação de funcionários da universidade. Os estabelecimentos com essa marca oferecem vantagens aos colaboradores da USS. Em quase todas os cantos de Vassouras há uma ramificação da universidade. Os que mais se destacam são o campus principal, localizado na Broadway (a rua mais movimentada da cidade, onde tudo acontece) e o atual prédio da reitoria, ex-estação ferroviária construída no centro do centro da cidade. É muito comum encontrar em Vassouras jovens estudantes provenientes de muitas cidades do Rio de Janeiro e de Minas Gerais. No campus central há uma exposição permanente sobre a história da universidade desde o seu início aos dias atuais. Vale a pena conferir.

Não conheço, mas dizem que os passeios pelas fazendas de café são maravilhosos. Os roteiros dessas fazendas estão disponíveis nas recepções dos hotéis e pousadas da cidade.

6. Comida: Os principais restaurantes estão na Broadway. Conheço alguns e gosto de todos. Para uma ocasião mais informal, tipo um choppinho no sábado à noite, vale conhecer o Bar do Delermo. Fica bem pertinho da Broadway. Aos sábados tem música ao vivo. Os petiscos são ótimos! Um item famoso nos cardápios dos restaurantes é o caldo. Como o clima da cidade é predominantemente frio (principalmente à noite), os caldos fazem muito sucesso. Eu sou um consumidor assíduo do caldo de ervilha do Bar do Delermo.

   Além de tudo isso, convém dizer que os vassourenenses costumam ser simpáticos. Nunca tive problemas.

   A sensação de segurança é um fator muito atraente, principalmente para os moradores do Rio. Vem aumentando muito o número de jovens cariocas nas repúblicas estudantis da cidade. 

   Ah, vale dizer que na cidade não há semáforos. Os motoristas, ao perceberem um pedestre pronto para atravessar, param o carro.

   Acho que é tudo. Espero não ter deixado nenhum ponto importante de fora. O pouquinho que conheci da cidade me deixou encantado. Tomara que aconteça o mesmo com você. Boa Viagem!

Um forte abraço,

Leandro Cristóvão.

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2008: “TUDO VAI RECOMEÇAR”!

imagem-rio.jpg                     Amigos, como não poderia deixar de ser, gostaria de iniciar o ano, presenteando todos vocês com mais um poema de Mario Quintana!!! Que este não seja apenas “mais um”, mas que possamos ler tais versos com aqueles olhos típicos do início de ano: confiantes e esperançosos!!!

 Canção do dia de sempre 

Tão bom viver dia a dia…

A vida assim, jamais cansa…

Viver tão só de momentos

Como estas nuvens no céu…

E só ganhar, toda a vida,

Inexperiência… esperança…

E a rosa louca dos ventos

Presa à copa do chapéu.

Nunca dês um nome a um rio:

Sempre é outro rio a passar.

Nada jamais continua,

Tudo vai recomeçar!

E sem nenhuma lembrança

Das outras vezes perdidas,

Atiro a rosa do sonho

Nas tuas mãos distraídas… 

                   É maravilhoso pensar que nenhum dia é igual ao outro, que, a cada amanhecer, temos, diante de nós, uma oportunidade para realizarmos coisas novas e aproveitar esse dia intensamente, e não, ansiosamente. Vivê-lo sempre como se, de fato, fosse o próximo, o seguinte, e não, “o último”. Dessa forma, “a vida, indubitavelmente, jamais cansa…

                  Saber viver todos os momentos, se bons, nos deleitarmos por tal ventura; se ruins, sabermos extrair o que de bom ele pode nos oferecer ou ensinar. Assim, vamos acumulando conhecimento, sentimentos, emoções, tendo a certeza de que, se não acertamos naquele momento, no outro, certamente, seremos melhores.

                 Não nos iludamos, achando que tudo será eternamente igual e constante, pois “nunca dês um nome a um rio: sempre é outro rio a passar.” Por isso, jamais pensemos que não somos capazes de transformar aquilo que nos oprime em algo positivo ou em que nos faça bem! Que, então, apenas o nosso desejo de ajudar o próximo, de ter respeito e amor aos nossos semelhantes é que seja algo inalterável!

                   2008: “tudo vai recomeçar”! Que possamos enxergar que temos mais uma chance de aprender, de ensinar, de amar, de sonhar, de fazer novas amizades, de planejar, de realizar, de corrigir, de acertar, de limpar, de plantar, de colher, de trabalhar, de sorrir, de abraçar, de compreender, de perdoar, de conquistar…enfim, de SER FELIZ!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

                  Cultivemos a esperança e a alegria desses trezentos e sessenta e poucos dias vindouros e assim, surpreendamo-nos com o que nós podemos proporcionar, não só aos outros, mas principalmente, a nós mesmos!  

                  Um beijo carinhoso e um forte abraço da amiga,

                 Simone Silva de Oliveira. 

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Recomeço

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     Depois de um longo inverno (e também um longo verão, primavera e outono) o MAIS ALÉM recomeça sua “temporada” de posts. Num bom momento, digamos. Estamos contagiados pela onda da esperança. Zeramos os contadores, agradecemos o alcançado e iniciamos nossas resoluções para o novo ciclo. Adoro essa fase do ano. As pessoas estão mais alegres, o mundo parece ter mais vontade de viver. Janeiro é um ótimo mês.

     Uma pena que essa sensação não dure o ano todo. Seria ótimo viver sempre com esperança. A nova dieta. O novo carro. A nova paz. O novo mundo. Realmente, seria ótimo ter sempre o NOVO em mente.

     Que a esperança, a novidade e o recomeço de janeiro vivam em nós durante todo o ano! Um lindo 2008 para todos!

     AXÉ!!!

    Um grande abraço,

     Leandro Cristóvão.      

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Negro Barbot

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Terça-feira é feriado da Consciência Negra e ninguém teve presença mais significativa no quesito em minha vida do que Rubens Barbot.

Eu era apenas um aspirante a bailarino e ele, o artista local com quem Pina Bausch saía para se divertir aqui na cidade. Não que este fosse o seu mérito: ciceronear a grande diva alemã da dança moderna no Rio de Janeiro. Pina também devia saber o quão valioso era o trabalho daquele negro exuberante, malandro e sedutor.

Lembro de quando fiz a primeira audição para a sua companhia, então em seu auge devido a uma apresentação bombástica na Bienal de Dança da cidade francesa de Lyon. Barbot, com look despojado, sotaque gaúcho e uma das boinas que ele mesmo fazia, observava todos nós, jovens bailarinos negros, e se perguntava se alguém ali valia a pena ser selecionado.

Acabei não sendo escolhido, mas um amigo que já dançava na companhia o convenceu a me dar uma oportunidade. Nem sei se contribuí tão significativamente assim para a história da companhia, mas ele e Gatto Larsen, seu companheiro de vida e arte, sim, fizeram muito no que diz respeito à minha formação artística.

O André que saiu da companhia, alguns anos e personagens depois, sem dúvida, era outro. Mais confiante e mais negro, carregando na mochila algumas histórias para contar (as minhas e as deles), além de uma boina como souvenir. Afinal de contas, o que vale mais na vida do que colecionar histórias? Belas, tristes, engraçadas, líricas, trágicas…

Obrigado mestre Barbot pelos ricos capítulos com os quais me presenteou. Deus o conserve a ti e tua arte! Axé para todos!

André Silva Bern

* Foto (créditos): http://www.realhiphop.com.br

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Perdoar

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            Cheguei perto da balconista, como quem pede um favor, e perguntei quanto custava perdoar. Ela me disse que o preço variava dependendo do cliente, mas que não era discriminação, não. Tinha que ser feito sob medida, o que demandava tempo e habilidade. Custava muito mesmo. 

            De qualquer maneira, eu teria de esperar um bocado. Segundo ela, perdoar andava em falta no mercado e nem sequer havia algum em estoque. Se fosse caso de urgência, era melhor fazer por conta própria. Voltei à casa angustiada. Não que eu mesma já não houvesse tentado fazê-lo. Acredito não tê-lo feito direito, pois a danada da dor insistia em reaparecer. A cada vez, doía diferente. Às vezes, era ardência. Em outras, deslizava fria como punhal.

            Não suportava mais a febre que a mágoa instaurara em mim. Olhei nos olhos daquele que me infligia tal sofrer e o puxei até o sofá. Sem hesitar, pus o orgulho na mesinha de centro, ao lado do vaso onde havia plantado uma semente de desconfiança. Eu deveria ter imaginado que desconfiança não combinava com a minha sala de estar.

            Toquei o rosto do meu algoz e pedi-lhe ajuda. Fiquei surpresa quando o vi retirar do bolso um perdoar. Estendeu-lhe a mim, mas o interrompi. “Guarde contigo. É teu”, disse. A dor não existia mais. A febre cedeu.

            André Silva Bern

          

           p.s.: Depois de tanto tempo em off, nada melhor do que um pedido de perdão, né? Risos… Dedico este post à querida Simone Blanco.

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